Muitos praticam a delegação mas talvez não entendam exatamente do que se trata. Delegar não é “deslargar” (o mesmo que largar). Tem gente que acha que está delegando quando na verdade acaba largando o assunto como se não lhe pertencesse. Delegar significa que outro fará mas não significa que você não estará envolvido.  Sabem como aprendi isso? Na prática. Vejam no texto abaixo.

Um desafio a cada dia

Todos os dias, a todos os momentos, a vida ensina. Eu sou grata a todos com os quais interagi e com os quais mantenho contato no dia a dia. Às vezes a gente não consegue capturar o momento da aprendizagem mas o conteúdo fica. Você consegue se lembrar de algum momento que valeu um aprendizado para a vida? Eu sim.

Após o programa de trainee me vi atuando como assessora de uma área muito grande que era liderada por um executivo na faixa dos 60 anos.

A área tratava de recursos humanos, contratos, materiais, controladoria, meio ambiente, ou seja, toda a área administrativa. Numa época em que os computadores pessoais não eram muito comuns. Um dia eu estava trabalhando para transformar dados do mainframe em relatórios gerenciais e em outro estava participando de uma reunião com sindicatos ou apoiando atividades de comunicação interna. Também participava de reuniões envolvendo investidores, clientes ou fornecedores. Não tinha rotina, cada dia era uma novidade.

Os assuntos eram bem diversificados o que me proporcionava muitas oportunidades. Mas a aprendizagem que me marcou, que ficou pra vida, foi diferente. Dizia respeito a delegação.

Experiência, serve sim para alguma coisa

Eu aprendi muito com os gerentes e técnicos dos diversas setores que compunham aquela grande área, desde assuntos técnicos, como outros que só a vivência propicia. Conviver em grande empresa nos permite desenvolver visão de todo e exige tato.   

Aparando arestas, correndo atrás de informações, organizando dados, ouvindo os debates, observando as negociações, fui me dando conta do quanto o nosso líder tinha uma personalidade interessante. Todo atrapalhado em sua vida pessoal, brincalhão, falante, nada lhe escapava. Não era organizado, não anotava mas estava atento a tudo e… me cobrava informações, o nível de exigência era alto. A seu modo, sabia de tudo, afinal, experiência de vida era o que não lhe faltava, transmitia segurança e para ele “não tinha tempo ruim”.

Delegação e responsabilidade

Entre as várias lições absorvidas, destaco uma situação em que aprendi sobre delegação.

Início da década de 1990, negociações sindicais acirradas, após várias semanas chega uma proposta da empresa. Esta proposta deveria ser transmitida a gerentes e supervisores. Dúvidas seriam tiradas em uma grande reunião com todos, para que pudessem esclarecer os empregados, que seriam convocados para uma assembléia. Após ajudar a montar a apresentação, fui orientada a providenciar 60 cópias do material (umas 10 páginas) para uma reunião que se iniciaria em… 10 minutos.

Corri, como era habitual, para atender mais aquela demanda. Entreguei o material para um senhor que fazia cópias. Era uma máquina copiadora grande, que montava 10 blocos a cada vez e grampeava. O operador fez o procedimento até que me entregou 60 cópias. Cheguei ao auditório onde estavam cerca de 60 pessoas. A um sinal do meu gerente distribui o material e ele iniciou a apresentação. Lá pela metade ele citou um tópico e faltava uma página no material impresso. Levantei-me para já solicitar cópias da página que faltava quando fui interrompida por um “puxão de orelha”: Por que esta página está faltando? Respondi: havia pouco tempo, não pude conferir, vou providenciar o que falta. Ao que me respondeu: Aprenda uma coisa, você até pode delegar uma tarefa (a de fazer cópias) mas a responsabilidade pelo resultado é sua. Enquanto a reunião prosseguia, roxa de vergonha, sai, voltei com o material e sob olhares compreensivos dos colegas que estavam na sala, fui entregando a página que faltava.

Ruim? Sim. Mas … nunca mais me esqueci do aprendizado: Quando se é responsável por um processo mesmo que você tenha delegado as tarefas, você é responsável pelo resultado.

Na minha vida profissional este ensinamento sempre foi e continua sendo útil. Nunca mais me esqueci do que é delegação. Então, só posso agradecer aquele puxão de orelha. E você, já levou um destes puxões de orelha que ensinam?

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Carmelita Guerra é consultora em Recursos Humanos